insania entidade mundo torto..
13.5.09
hj
postado por: GLAUCUS NOIA 8:57 PM
22.10.08
também as pedras são livres
as pedras repletas de silêncio,
expostas à saudade.
ausentes ao movimento,
alheias ao pensar.
também as pedras são livres
e cada mão, e cada pedra...
as folhas em branco são puras,
as pedras são eternas...
e pesam as sombras e sua fria solidão
Glaucus Noia
13de março 2003
São Paulo - SP
postado por: GLAUCUS NOIA 11:34 AM
8.10.08
,,,
postado por: GLAUCUS NOIA 12:40 AM
11.10.07
..
postado por: GLAUCUS NOIA 4:29 PM
20.4.07
.
postado por: GLAUCUS NOIA 7:36 PM
12.8.06
Jardim de inverno
Tinha acabado de subir a falésia vindo da praia. Sem nenhum animo, mas com a coragem de cem navios que abram um mar nos olhos, ao longe. Lá embaixo, antes do mar e dos barcos, que nem eram navios, mas embarcações de pesca, desabrochavam séqüitos de turistas estrangeiros. O mar os buscava sem achar, tateava cego. Bruto e desajeitado, em golpes crus de quem não vê o gesto que executa. Era cru e até por isso terno. Ergue-se a pele do animal e se desvendam os dentes num sorriso perigoso, não era assim mesmo? E também não era assim que se amava no mundo fora de cada um?
Girou sobre os pés sem passo para a passagem de um gavião de grito. A dupla das mãos apoiada sobre o peito como se lhe pesasse ver uma cena bela. Cair-se-ia na terra clara, sobre as pegadas marcadas no barro já seco. Entre as mãos e a pedra vermelha cravejada de chumbos, havia o bloco de papel e palavras ¿ Aaá... ¿ repetiu num sopro de garganta que morreu na voz do mar e no passar do vento. A mesma rajada que levava o gavião no espaço, sugava-lhe a voz. A Mancha escura de paz riscou mais uns passos sobre a própria sombra que tombava à direita. Subia e descia dos desníveis do solo seu sem-tom frio. Ceci fez a volta na passagem curva que havia na cerca e não leu na placa que dizia algo, devia dizer algo.
Enquanto contemplava uma seqüência de pétalas que muito se assemelhava à floração de um só corpo que trazia em si e a ligava ao Dentro, não percebeu que se apagava o desenho no chão. Procurou a nuvem e a encontrou frente ao clarão branco. Branco sobre cinza. Sorriu, sentia que dividiam certa sintonia, ela e o exato momento do dia em que olhara o céu vestido de nuvem frente ao sol, mesmo usando tons bastante diversos. Voltou-se novamente à flor e, inclinando-se, tocou-lhe na língua o frio das pétalas, o aroma da cor na temperatura da natureza viva e indiferente. Indiferente era o termo! E isso não era nada bom. Indiferença era um ¿termo¿ perigoso. Resolveu se movimentar para que não lhe crescesse no pensamento aquela crosta de erros fugitivos de algum gesto atordoado, sucumbindo de algum mal sem cura. Passos rápidos e rasos, 1 2 3 escorregões depois passou a correr de cabelos esvoaçantes. Nas pontas dos fios sentia desprender-se dela o seu pior que brotava. Chegavam às pontas e pendiam deslizando no ar. Penas negras de pássaro açoitado de alguma agressão interna, sangrante de caos que o entardecia de algo qual vingança e crueldade. Por onde passava deixava seu rastro de cinzas de um passado torpe. De vileza e cortes no braço esquerdo, de olhar de pai, que não era legal. Corria e nunca mais havia de parar. Ria alto tentando controlar os sons, como se rir fosse uma traquinagem. Aos poucos nasceu-lhe a primeira gargalhada, e logo ceci era só risos e movimento... como uma nuvem que passa como uma árvore que fica. Queria ser um cravo num canteiro da cidade, não era. Queria ser uma palmeira, não era. Queria que palmeiras dessem coco, só para não ter caído na brincadeira do ¿doutor¿, não dava. Queria ter cavalo, não tinha. Queria sol, não havia. Queria parar, não conseguia. Queria rir, sorrir, já não queria! Queria tudo ao mesmo tempo, o que não tinha. Todos os desejos de uma vidra ressentida. Estancou e desabou um suspiro. O mundo lhe era cruel. Cruel e sádico.
Arquiteturas de um tratado esquizofrênico.
postado por: GLAUCUS NOIA 11:50 PM
21.5.06
trexo de monólogo
"você me acompanha na inércia velha que guardo aos dias. sou tão velho e despreocupado a esse tempo de preguiça caída dos céus que tenho medo de me olhar ao espelho e me ver enrugado e arcado na coluna a qualquer momento, e o mais intrigante é que seria possível não me espantar.
e você me vem como um outro amigo, sem sexo, sem cor, sem tempo ou atenção o bastante para se saber algo dentre opostos. uma amiga que só entra sem bater, senta, se serve de chá e me olha nos olhos com toda notícia de que uma vida se satisfaz...
eu, aqui, mais uma vez para você que me inspira..
estou triste hoje dentro dessa calma, minha grande amiga, triste...
e não há motivos...
se os procurasse acharia tantos... e poderia até ficar mais triste, e até perder minha calma...
mas não quero. não sou assim hoje. e penso que a tristeza não tenha motivos...
mas somos só nós que nos permitimos que nos caiba de motivo algo que se utiliza de nós para captar uma nostalgia que gira a todo tempo o mundo e o resto todo... e encontra nos poetas e nas questões... abrigo fiel...
e acaba virando amizade essa tristeza...
não sou depressivo ou triste.
sou poeta.
não conheço a vida senão por esse parâmetro; não reconheço a vida como minha, se muito contente, e não me reconheço dela se muito amargo...
a aceito apenas nessa normalidade tal como é.
quando algo alcança o patamar da normalidade, como grau referencial, não há mais por que carregar um nome., desde que aceito... o zero é redondo e perfeito, por que se encerra em si e se completa em ciclo infinito que por assim ser sem fim, pode-se dizer estático e pleno."
postado por: GLAUCUS NOIA 9:08 PM
23.3.06
fitou uma borboleta em sua luta contra o vento. homem perdendo para o destino. se perdendo. voa frenética como se come e bebe todos os dias. em desvantagem se envereda pela mata, quica. por fim se agarra a um galho fino, seco..; a fé. e dali solta uma vez mais. o vento lhe rasga o vôo mau-feito.
até o fim.
20de novembro, 2005
Espelho - BA
postado por: GLAUCUS NOIA 6:31 PM
14.3.06
O homem sem passos se movia a trancos sob a chuva forte. Forte. Forte até para os carros e seus vidros que recebem gotas de forma mais brusca, mais violenta que o corpo.
E a tempestade, com efeito, separava as pessoas, os carros as coisas umas das outras...
Nas casas nem se comenta... Se tornam universos vedados. Como em épocas de guerra, que é sempre, em algum lugar do mundo, os abrigos subterrâneos... E o...
homem atravessou a rua.., E segui seu mover sem passos, sem gestos, sem consciência e com muito álcool na idéia vaga de mundo e, talvez, preenchida de tristezas e melancolias...
Ele chegaria em casa.., sem gestos para a porta.., sem corpo para o banho, sem face para vergonha, ou olhos para a reprovação dos olhos da mulher...
sem tapa para o medo dos filhos.., sem sono para a cama..; Apenas ausente!
Ele se deitaria, talvez na cama, talvez na sarjeta, e iria esvair a substancia dominante num sono frágil de esquecimentos.
Até o retorno da consciência...
e a manhã pela metade.
2005.
Dia de água
Olharam-se naquele instante pequeno de pequenas respirações e pequenos atos de olhos apertados, de saudade antecipada. A água na chaleira sobre o fogo. O movimento oco de cada gesto. Os olhos, duros feito pedras e fundos como oceanos. Precisava partir, nada havia acontecido de fato, mas sabia, somente sabia que era tempo de partir. Não faziam muita coisa, aliás, nada faziam efetivamente. Era só marasmo que se vivia atualmente dentro do dado viciado das quatro paredes, mas é nesse espaço inerte de pouca novidade e muito convívio que a admiração apodrece. O vapor se desenhava bonito no ar macio na sala e o agora era um duelo de olhos fortes, como a ultima frente de batalha que hesita em render-se ou lutar, mas que de qualquer maneira anuncia queda. Quem desviaria primeiro o olhar do tremor daquela cena, quem admitiria a culpa em olhos baixos, a vergonha no enrubescer.., ou simplesmente a dor..? Ficou, fundida em cada corpo de marcas da antiga possessão, apenas a dignidade límpida no gesto de cabeça e na pressão posta nos lábios de pesar.
As lágrimas ganharam. E os olhares continuaram unidos na despedida leve e permanentemente infinda, arrastada pelos dias de tantas alternativas não tomadas e não assumidas, daquele amanhecer sem rotina, sem café.
04de setembro, 2004
São Paulo - SP
postado por: GLAUCUS NOIA 11:30 AM
, é que bastava-me que caísse uma primeira lagrima, para que meus olhos só enxergassem sal. Um mundo de esculturas brancas, uma multidão de estatuas se desfazendo com o tempo e com o vento desse deserto árido salgado; tudo esbranquiçado, e sem vida; todo sentimento, de ardor..; um existir estéril, esvoaçante, agredindo em grãos pelo vento, dunas secas nas esquinas de olhos; olhos, apenas para contar a passagem dos grãos.
Bastaria uma primeira incerteza para a nau-destino perder-se no azul intenso, e instável no jogar das ondas, no açoite, atirar-me ao desalento das águas profundas a afogar-me em falta de coragem e culpa, e eu seria um mar.
No litoral de uma união que se desfazia, os ventos sopravam nossas palavras, e assim, falávamos cada vez menos. Ouvíamos o bater dos golpes na luta, na caça dentro de cada onda que volvia no balanço para o silencio de concha vazia, e que carregava nos botes de garras e presas que se amontoavam, atacando e devorando, rolando submersos, aos abstratos que pesam vidas, peitos já miúdos de sentimentos enormes, de cansaço.
Na minha mente, mesmo depois daquele silencio final; do dilúvio, ela vinha sempre muito calma e sorrindo, me chamando de seu, de anjo-poeta. Por demais tranqüila e me garantindo alguma paz. Como se dividíssemos um sonho. Mas na realidade cruel da lembrança, nas jaulas irrevogáveis da memória surda, que não ouve o basta, que ignora todo grito, toda voz de ¿CHEGA¿, todo pranto feio, qualquer angustia, motivos e até desejos de um fim, era um pesadelo que dividíamos em partes desiguais. A dor maior, a que todo amor esta suscetível, sempre mal dividida.
Com muita indiferença, construiu-se, ao invés da realização dos sonhos anteriores, um pesadelo a vivenciar. Sobre uma distancia que só aumentou e só fez aumentar até aqui, onde só, muito só à beira mar dessa solidão imensa em azuis, eu a tenho; ainda calma, mesmo que com sorrisos mais difíceis, tomando chimarrão (mais amargo porque eu, por desatenção, deixava ferver à água), lendo Caio Fernando, trabalhando, tomando seus banhos, se vestindo pela manha, rindo ao telefone, e tudo muito alheia, muito ausente ao que eu era, ao que eu estava, por você; longe de casa, deslocado, ficando sem dinheiro sequer para voltar a tras, morrendo um muito de espera a cada dia por uma tentativa menos falha de você que dizia tentar...
Frágil, frágil e vulnerável - sensível demais -, eu cometera o grande crime da condição de ser; entregar a alguém, o que a ninguém se admite sequer, -talvez, sequer às folhas-, por sequer ter por completo, -nenhum controle ou conhecimento pleno-, a bem da verdade. O ato impensado e tolo de se entregar demais, de acreditar acima de todas as coisas, de prometer,-mesmo que a si mesmo-, ser o que não se sabe se é, se seria capaz de ser, ou se possível seria a alguém tal papel. Era o pecado terrível de perder, não, não perder, mas de dar, entregar sua individualidade a algo, a alguém...
trecho do livro de trechos a ser publicado este ano...
postado por: GLAUCUS NOIA 11:06 AM
hall de entrada
Quando despertou naquela tarde Cecília sentiu frio, o frio das pessoas ao redor, o frio do colchão úmido, o frio do tempo, o frio que vinha de fora e entrava pelas frestas da janela embaçada que, estranhamente, contrastava com outro frio, talvez maior. Era um frio seco e sem tempo e sem espaço para sopros quentes nas mãos esfregadas ou qualquer outro tipo de calor. Era um frio tenso, o frio de dentro; dela, do quarto, dos muros, da cidade, e do quarto maior do lado de fora.
Se levantou nos cotovelos e conferiu seu mundo. Estava sujo ainda, com toda sua personalidade estampada nele. Sentou-se na cama, as pernas dobradas. Calcanhares sob coxas. Esfregando as mãos recitou a sétima elegia de Rilke. Olhos fechados e entre um bocejo e outro.
Depois se virou de lado e acendeu a vela branca e grossa que pesava a mesinha vazia de cabeceira.
_Você está fria!- sussurrou soprando a chama que após se debater um pouco soltou um ruído chiado, imitado por ela por ¿furroul¿.
Ergueu de vez o torso, úmido nas costas. Colocou o pé esquerdo para fora da cama, sentiu o chão frio na sola fina. Era uma sensação boa. Caminhou a passos largos até o banheiro. Tomou seu banho, quente e demorado. Fez sua ¿toillet¿ e o desjejum. Logo estava na biblioteca, rodeada de volumes velhos com cheiro de passado.
Quarto I
Depois da leitura e da escolha de alguns livros pelo cheiro e cor das páginas, desceu até o pátio. Havia chovido na madrugada. Era o que as gotas diziam, escorridas nas janelas suadas de lá de dentro e esparramadas sobre as folhas e flores nos canteiros lá fora. ¿Não é só orvalho!¿
Andou um pouco, e secou algumas flores de São Miguel dentro de ¿A Voz do Mestre¿ de Gibran. Volume pequeno com aroma de ferro nas páginas cru e um que de verde. ¿cheiro verdinho¿ observou baixinho como quem descobre uma traquinagem. Essas flores eram suas favoritas. Não havia uma cor exata, em cada galho assumiam uma tonalidade, e cada uma mais linda que a outra. Em alguns casos eram quase brancas, em outros, de um roxo intens
postado por: GLAUCUS NOIA 11:06 AM
Sob o cinza ofegante, arfando o som dos carros, pulsando em tantos passos, ela despertou olhos ausentes. Indiferentes. Olhou o quarto que era mundo e menos, sujo de cores. Quase não sorriu sem mostrar os dentes. Não, não havia contentamentos, alegria ou calma.., Paz? Humm, não. Ausência mesmo.
Sabe o que é ausência? Essa ausência grande e fora da palavra que a traduz mediocremente? É o abandono... do que for. A fuga perfeita, tangível somente a níveis ínfimos de consciência. sub-níveis de ¿consciência¿, a consciência plena, o não consciente do corpo. O não pensar. O Não.
Mas ela não precisou pensar tanto em tantas coisas com tantos nomes. Ceci apenas abriu os olhos e viu. Viu o mundo que se fechava em sons e cheiros em redor dela, aspirando roncos, inspirando buzinas, pirando vozes, risos, movimentos simulados, cotidianos vendidos, casamentos fingidos e rostos, rostos, muitos rostos. Rostos contentes, rostos tristes, expressões perdidas. Olhos de boneca! Em todo canto, vivendo vidas de penteadeira. Sobre as roupas em redor dos corpos devidamente escondidos no jogo de esconde esperando que alguém ache, e bata o devido um, dois, três.
Desejos, uns reprimidos, outros não... desejos e corpos bem ou mal fodidos. E ao fim, Era sexo!
Sexo... Sempre que pensava essa palavra, ecoava-a na mente tentando-a manter no nível do real, porque não a pronunciava, nunca. -nunca!- Mas era preciso que ela não sumisse na ausência de fala, nesse silêncio... era preciso conservar até os inimigos. Não soube de onde viera isso, mas soou bem, em algum lugar dentro dela tempos a tras, (dias, semanas, meses.. tempos). E seu pai era um homem bom.
À tarde foi ao bosque colher flores, ler, e dançar. Girar cheirando livros e vendo esvoaçarem as folhas a um metro de si, ao fim do braço. Como asas que voassem um só lugar e piasse letras que já conhecia de suas histórias e seus sonhos...
Num dos giros, as asas se descontrolaram e voaram, ela esperava há tanto tempo por isso, ver livros voando e semeando algo, algo menos obvio, utópico, menos batido que educação, esperança... Mas não durou muito seu estar instável de vôo pardo, ele pousou logo e só trouxe nas asas o fim, de algo além de seu vôo curto.
Ela sabia! Sabia! Sempre soube que quando acontece finalmente algo por que se esperou demais, o impacto disso quebra espectatívas. Seja para mais ou para menos, sempre há o sobresalto do impacto...
Ergueu, com as pontas de indicador e polegar, como se por uma pena apenas das páginas-asas, o livro-pássaro que lhe parecia ainda ofegante, imóvel qual os pássarinhos que vira e mexe batiam nos vidros do hospital. Abaixo, ali, estirada sob a capa aberta, pesada ainda do vôo tombado, foi-se desvendando o corpo fino, tênue no gesto estático de findar... Pétalas de um corpo sutil que denunciou, sem um som sequer diante de tanta vida, a morte. Sua própria morte, agora anunciada!
Tomou o cadáver esguio nas mãos e chorou o ato de eternizar nas páginas de seu pássaro cansado, rajado de versos, sua existencia à beleza fria.
Naquela noite sentiu dificuldade em pegar no sono sufocada pelo aroma das flores dentro dos livros. Pôs-se então a amontoá-los atras da porta do banheiro, aprisionando-os depois de porta fechada. Se viu nos livros confinados, sua vida engastada a um espaço pequeno e quadrado, e sorriu. Quando voltou a se deitar, a madrugada já se anunciava pelo cantos, em silêncios e escuridão, lavando o mundo das cores e dos sons. O sono deitou seus dedos de descanso sobre seu colo, afinado-a à noite. Ela sabia que carregava ao plano abstrato de novo tempo que inauguraria em sono, algo mais que tempo perdido. alguma presença que se instalara e fazia sentir seus efeitos. Silenciou a mente. Os cães ladraram e depois, foi silêncios simultâneos sustentados de algumas horas de quietude maior, e quebrados pela manhã, quebrados por medo de um perdurar maior desse encontro de afinidades, pelos golpes do novo dia, pelo canto do galo, ordem de batalha, que chamava os outros sons, que aceindia na postura as cores de tudo.
postado por: GLAUCUS NOIA 11:05 AM
O sol caía sobre o horizonte de madeiras, de placas, de telhas velhas, a passagem de algo sutil num gesto próximo, alheio ao mundo subordinado das coisas; das vozes aos carros, de sons de passos; no caminhar adiado dos pés descalços do homem envolto em sacos plásticos, ou dos saltos femininos das mulheres adventistas enfiadas em seus vestidos azuis ou saias.
Ele sentia a vida interrompendo a voz, gargarejando aquele desconforto, a dor que Há de plano de fundo, um sofrimento que só espera sua vez.., à espreita... O som agudo se estreitando em seu pescoço. Água que sobe no copo que se enche e grita aquele aviso, de limite.., a tentativa do pedido por socorro afogado.
no corpo que se enche de marcas pela vida.
na vida que vazia, se busca, em si, ao redor... nas coisas, alheias ao sol poente, que não são ele, que gosta das coisas, que não são ele, que gosta, que não são.
´´gosto das coisas porque sendo coisas
não são o que sou.
conhecendo-as, me desconheço e posso
ser mais eu...
...gosto das árvores porque não sei apenas esperar pelas chuvas e estações.
gosto das folhas porque não sou folha.
gosto das pêras porque sob relógios, também perco-me no fulgor de estar pronto para nada também (não uso relógio, mas não sou pêra.)
gosto do galo porque cantando é sem morte.
gosto da canção porque a trago dentro de mim dizendo coisas que ainda não sei.
gosto dos ventos porque não tenho o talento de tatear com ausências,
contornar com um sopro...
gosto do mar porque meu peito não se estende,
porque minha voz não inspira,
porque não alcanço o horizonte com meus braços...
das poças, porque recolhem as gotas que não bebi.
das flores porque expressam a beleza simples em imagem.
das borboletas porque se equilibram no vôo refletindo o belo (e o bizarro) de cada extremo.
dos livros porque inanimados, dizem muito mais que eu que corro.
do luar porque nem me lembro de existir diante dele.
do céu, porque conhece as coisas, todas, de infinito a infinito.
gosto dos sinos porque Neruda me ensinou antes de sair.
gosto das lágrimas porque nunca caí com tanta dignidade.
gosto das folhas em branco porque não sou suscetível a todas possibilidades.
gosto do nu porque não me sinto nu.
gosto do tempo porque escreve obras completas
porque não há quem melhor console...
gosto de amor porque é completo.
gosto da vida, porque sei que nos engana, mas não sei o que é a vida.
gosto das pedras porque são o que não sou,
porque têm o que nunca terei.
Gosto de coisas porque é tudo, e fora de mim.´´
postado por: GLAUCUS NOIA 11:04 AM
o mendigo comia e olhava
como se tivesse olhos...
(mas olhos são para pessoas)
o mendigo olhava e comia
como se pudesse matar a fome que tinha...
(mas cultura custa caro.
custa tempo e dinheiro.)
2005
postado por: GLAUCUS NOIA 11:04 AM